Podemos dizer que a
frase acima define o livro “Mulheres Negras”, do escritor pernambucano Adeildo
Vila Nova. Como o nome sugere, a publicação saiu de um estudo feito sobre oito
mulheres negras e pobres e que mostra o papel de cada uma delas na sociedade.
Um tema difícil, complexo e delicado, que o autor conversou conosco explicando sobre a escolha do tema, busca das personagens, dificuldades, parcerias e o lançamento da publicação no mercado virtual.
Confiram.
Por João Messias Jr.
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Mulheres Negras Divulgação |
UM DIA SEM ROCK: Adeildo,
como surgiu à ideia de fazer uma publicação sobre a vida das mulheres negras na
sociedade brasileira?
Adeildo Vila Nova:
Desde 2001 iniciei minha militância no Movimento Negro organizado e a partir
daí, todos os meus estudos e pesquisas foram direcionados à questão racial,
como foi o caso do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de
graduação/bacharelado em Serviço Social e da minha especialização/MBA em Gestão
de Pessoas.
A ideia de falar sobre as mulheres negras surgiu pelo fato de querer
falar sobre a questão racial e na minha sala de aula ter uma amiga que queria
falar sobre a questão de gênero. Unimos então os dois temas e o resultado foi o
livro, que originalmente é a nossa monografia do curso de Serviço Social que se
transformou em livro.
UDSR: No livro você
retrata oito mulheres. Como chegou aos personagens e quais se houve alguma
dificuldade na condução das entrevistas?
Adeildo:
Cheguei às personagens estabelecendo alguns critérios. O primeiro deles é de que
fossem negras e de origem pobre e que tivessem ascendido socialmente
(economicamente, financeiramente, politicamente), para que pudéssemos analisar
os fatores que contribuíram para esta ascensão. Como faço parte do Movimento
Negro, não foi difícil pontuar algumas personagens entre as nossas militantes.
As dificuldades encontradas na verdade foi com relação às mulheres fazer o
resgate da sua origem até a atualidade. Isso mexeu muito com o emocional de
cada uma delas, chegando ao ponto de termos que parar a entrevista para que a
entrevistada pudesse se recompor. No mais, foi tudo muito tranquilo.
UDSR: Houve algum
personagem que ficou de fora da publicação? Pretende utilizar esse material no
futuro?
Adeildo:
Talvez se amostragem fosse maior, ratificaríamos ainda mais as nossas
hipóteses. Como se tratava de um TCC de curso de Graduação, pensamos que esta
amostra seria o suficiente. Temos mais de 10 horas de gravação com as histórias
dessas mulheres. São relatos que, em cada uma deles, poderíamos escrever
diversos outros livros, pois são histórias riquíssimas de luta e de superação
das adversidades. Pretendo sim utilizar esse material em trabalhos futuros como
um Mestrado ou mesmo Doutorado. Penso que deve ser
publicizado, como forma tirá-las da invisibilidade à qual estão expostas
e motivar, cada vez mais, mulheres negras que lutam diariamente e que acham que
não há nenhuma perspectiva positiva de futuro. É importante pensar que essas
mulheres são exceções à regra. Foi isso que quisemos fazer, dar luz a essas
exceções para que elas também pudessem saber que, apesar de todas as
dificuldades, é possível vencer.
UDSR: O livro foi
lançado em parcerias. Como funciona essa forma de divulgação e o que achou do
resultado após seu lançamento?
Adeildo:
A parceria funcionou da seguinte forma: Inicialmente o material foi colocado
para aprovação do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade
Negra do Estado de São Paulo que, inicialmente seria o responsável pela
publicação. O material foi aprovado por unanimidade entre os seus conselheiros.
Como houve mudança na direção do Conselho, o material foi encaminhado para a
Assessoria de Cultura para Gênero e Etnias. A Secretaria de Estado da Cultura e ela patrocinou toda a
impressão do material.
A divulgação foi feita em vários organismos de imprensa do Estado além de jornais regionais e locais. O material foi distribuído em diversos equipamentos públicos do Governo do Estado como bibliotecas, escolas, entre outros, além dos locais de lançamento entre os presentes, como foi o caso do lançamento em Santos e em São Paulo.
A divulgação foi feita em vários organismos de imprensa do Estado além de jornais regionais e locais. O material foi distribuído em diversos equipamentos públicos do Governo do Estado como bibliotecas, escolas, entre outros, além dos locais de lançamento entre os presentes, como foi o caso do lançamento em Santos e em São Paulo.
UDSR: Além das
parcerias, ele foi disponibilizado para download gratuito. O que tem achado da
procura do livro no mercado digital?
Adeildo:
Penso que o mercado digital ainda é pouco disseminado e o acesso, por mais que
haja uma ideia de que as pessoas têm acesso à internet com muita facilidade,
penso que ainda é muito restrito a uma determinada parcela da população. Já
houve alguns downloads do livro em formato digital, mas ainda em um número
muito reduzido. Talvez até pela falta de uma campanha de divulgação disso.
UDSR: Assim como na
música, cada vez mais os livros e revistas vem tendo suas tiragens cada vez
mais reduzidas. Você acha que isso se deve apenas ao mundo corrido de hoje ou a
falta de estímulo a leitura?
Adeildo:
Penso que é um pouco de ambos. O Brasil é um dos países que mais consomem
livros e música. Penso que não há incentivos para que os livros e as músicas
sejam disponibilizados a preços acessíveis a maioria da população. Assim como o
acesso à internet, a acesso aos livros também é muito restrito a determinadas
parcelas da população. A democratização da leitura ainda é um sonho distante,
pelo menos no que se refere a materiais realmente de qualidade e de alguma
contribuição para a vida objetiva das pessoas.
UDSR: Passado todo esse
tempo, o que mudaria no livro?
Adeildo:
Avalio positivamente a repercussão que o livro trouxe. A inclusão da
questão de gênero e raça nas pautas de discussão dos movimentos sociais negros
e não negros organizados. Já estamos com a impressão de uma 2ª edição do livro
que, se o cronograma se cumprir, será lançado no início de
novembro, como parte das comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra,
comemorado todo o dia 20 de novembro.
Não mudaria quase nada, tendo em vista que diariamente me deparo com situações tratadas no livro, que aconteceram há anos, continuam se repetindo na atualidade. Mulheres negras e pobres são discriminadas e excluídas deliberadamente de várias situações em seu cotidiano. O que mudaria na verdade seria a possibilidade de uma tiragem ainda maior para que pudéssemos fazer a distribuição em massa desse material, pois julgo de suma importância para a autoestima de várias mulheres, sejam elas negras ou não negras. É um material que abrange uma camada expressiva da nossa sociedade, que são as mulheres, responsáveis por grande parte do progresso do nosso país.
Não mudaria quase nada, tendo em vista que diariamente me deparo com situações tratadas no livro, que aconteceram há anos, continuam se repetindo na atualidade. Mulheres negras e pobres são discriminadas e excluídas deliberadamente de várias situações em seu cotidiano. O que mudaria na verdade seria a possibilidade de uma tiragem ainda maior para que pudéssemos fazer a distribuição em massa desse material, pois julgo de suma importância para a autoestima de várias mulheres, sejam elas negras ou não negras. É um material que abrange uma camada expressiva da nossa sociedade, que são as mulheres, responsáveis por grande parte do progresso do nosso país.
UDSR: Para encerrar,
diga qual seu processo de criação de textos. Você costuma ouvir música ou
prefere o silêncio?
Adeildo:
O processo de criação de textos é muito simples. Prefiro o silêncio total.
Preferencialmente durante a noite, ou melhor, de madrugada, quando a maioria
das pessoas está dormindo e as ruas bem tranquilas em relação ao trânsito. O
silêncio da madrugada me inspira e eu produzo com muito mais facilidade.
UDSR: Muito obrigado
pela entrevista! Deixe uma mensagem aos leitores dessa publicação!
Adeildo:
Eu é que agradeço pela oportunidade de poder divulgar esse trabalho que foi
feito com muito carinho, dedicação, afinco e, principalmente muita
responsabilidade e compromisso com a população negra, à qual tenho um enorme
apreço e admiração pela sua história de resistência, nesse mundo com tantas
adversidades, especialmente para eles. Essa é uma singela contribuição para o
debate sobre as questões de gênero e raça no nosso país. Quero também dizer que
essas mulheres são as exceções da nossa sociedade, mas mesmo como exceções,
devem ser difundidas para que, mulheres como estas, possam se identificar e
saber que, apesar de todas as dificuldades há possibilidades e é nessas e com
essas possibilidades que devemos trabalhar.
www.adeildovilanova.com
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